quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os prédios tortos de Santos


O solo de Santos é o segundo pior do mundo, inferior apenas ao da Cidade do México. O solo da cidade é formado de oito a 12 metros de camada de areia medianamente compacta, seguida de 20 a 40 metros de uma camada de argila marinha, podendo depois ter outra faixa de areia ou não, e por último uma camada dura (formada por rochas) que varia de 40 a 50 metros.
Para saber a resistência do solo é feito um relatório de sondagem. Retira-se uma amostra de cada camada, que é levada para um laboratório, onde se detecta o tipo de fundação a ser feita. Há dois tipos de fundações: rasa (em que se utilizam sapatas), quando se tem um solo que suporta a carga dos pilares, e profunda (onde geralmente se utilizam estacas) quando o solo é menos resistente.



O custo de uma fundação profunda é três vezes maior do que o de uma rasa, mas às vezes esse recurso é inevitável. É em função disso que muitos economizam quando não devem e esse é um dos motivos que faz com que os prédios da orla da praia sofram as inclinações com o passar dos anos. Em alguns pontos da Cidade, o terreno argiloso é o responsável pelos recalques dos prédios mais antigos, que não foram construídos sobre fundações profundas. Na verdade, o processo de estaqueamento de vigas de concreto, até atingir a camada fragmentada do solo (cerca de 60 metros abaixo), sempre recebeu resistência por parte da maioria dos construtores santistas.
Para economizar menos de 10% do custo total da obra, eles preferiram utilizar o processo de fundação direta, que prevê a colocação de camadas de concreto sobre a faixa de areia (sapatas).
Especialistas em fundações explicam que, mesmo sem sofrer rupturas, a primeira camada de areia comprime a argila marinha, provocando a inclinação das estruturas. O maior problema, então, não é o afundamento do prédio em alguns milímetros, mas o recalque diferencial, causado pela concentração de cargas em um dos pontos do edifício.
Quando um prédio é construído fora dos padrões exigidos, e ergue-se um edifício vizinho, este por sua vez acaba influenciando ao ponto de forçar o outro a entortar. É que os chamados bulbos de pressão, que se formam em cada prédio, juntam-se aumentando a carga, e a tendência é a aproximação destes edifícios.
Entretanto, hoje existem técnicas das mais diversas para se recuperar os danos causados nessas construções, como ocorreu no Edifício Excelsior. "Antigamente, de tão inclinado, o elevador deste prédio parava no oitavo ou nono andar, não subindo até o fim", esse problema foi sanado e a inclinação do prédio hoje está estabilizada. O recalque dos prédios em Santos, por ano é mínimo, porém não se descarta a possibilidade de que caiam, mas isso duraria muito mais de 50 anos para acontecer.



Duas características chamam a atenção dos turistas em Santos: os jardins da praia e os famosos prédios tortos. Não há quem passe na orla marítima sem perceber a inclinação de muitos edifícios. A maioria se encontra na Avenida Bartolomeu de Gusmão (entre a Avenida Conselheiro Nébias e o canal 6). São eles os edifícios Nuncio Malzone, 14; Excelsior, 22; Marazul, 53, Íris, 60 e Maembi, 65.
Mas há quem brinque com a situação. O zelador do prédio Malzone, Manoel Lourenço, sugere ironicamente a cobrança de ingressos para ver os prédios, lembrando a Torre Di Pisa que faz tanto sucesso na Itália. Manoel diz que os moradores acabam se acostumando com isso. "Faz 12 anos que moro aqui. No começo eu estranhava, pois não podia encher a xícara de café até a borda senão o líquido acabava derramando. Agora eu não percebo mais".
Porém, há aqueles que se acostumam rapidamente, como é o caso do zelador do Edifício Íris, Olívio Barreto. Ele mora [há] seis meses no último andar e comenta alguns fatos engraçados. Entre eles, de bolinhas de gude que saem correndo para o lado da inclinação e o de pessoas que não estão acostumadas e quando vão ao corredor acabam andando inclinadas. Os moradores do prédio Maembi solucionaram esses problemas nivelando os pisos dos apartamentos. "Assim os móveis não correm", afirma José da Cunha, auxiliar de zelador.
Há aqueles que não gostam ou não "podem" falar sobre o assunto. É o caso da faxineira do Prédio Excelsior, que não quis se identificar. Ela diz que o zelador várias vezes a repreendeu por comentar esses fatos com outras pessoas. Mesmo assim, ela conta: "Fazer faxina é um horror, pois a água vai toda para o mesmo lado, até no andar térreo". O zelador do Excelsior, Fernando Pereira, desmente: "Tudo está normal".
O proprietário da Academia de Ginástica Progressão, Tácito Pessoa, que funciona no Excelsior, mas na área voltada para a Avenida Siqueira Campos, diz estar no local onde há menos inclinação. Ele afirma que foi preciso nivelar o piso, mas, mesmo assim, há um canto da sala em que o peso de fazer exercícios, às vezes, sai rolando.

Realinhamento dos Edifícios

Em Santos, no ano de 2000, o Edifício Núncio Malzoni, com uma inclinação de 2,10 metros, foi realinhado, essa foi a primeira vez no mundo que um prédio com recalque foi posto em prumo. O prédio localizado na Avenida Bartolomeu de Gusmão, 17, teve sua estrutura arqueada entre 0,5 e 1 centímetro por dia.

O projeto de reaprumo do prédio, desenvolvido pelos professores Carlos Eduardo Moreira Maffei, Heloísa Helena Silva Gonçalves e Paulo de Mattos Pimenta, do Departamento de Engenharia de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica da USP, considerado inédito no mundo, foi visitado por engenheiros de diversos países como México, Canadá e Japão, e até por um dos engenheiros responsáveis pela solução adotada na Torre de Pisa, que veio conhecer a técnica utilizada.
Para corrigir o recalque estão foram colocados 14 macacos pneumáticos de alta potência nas laterais do prédio. Estes equipamentos receberão pressão variável de até 900 toneladas para erguer a estrutura.
No entanto, para fazer o monitoramento de todo o prédio, inclusive dos apartamentos, os moradores tiveram que deixar suas residências durante o dia e retornar à noite. Pois poderiam ocorrer rompimentos de tubulações ou então ser preciso interromper o fornecimento de energia. Além da obra, os construtores teriam que se preocupar com os moradores, o que dificultaria o trabalho.




O risco de macaqueamento é inexistente, já que os 14 equipamentos receberam pressão capaz de erguer o prédio ao mesmo tempo e em grau maior ou menor de acordo com a inclinação de cada ponto.
Se não fosse feita a obra de recuperação da estrutura, o Núncio Malzoni teria uma vida útil de mais sete anos.


Hoje em dia, o prédio está totalmente reaprumado. O projeto que conseguiu esse feito foi realizado em três etapas:

1a etapa: implantação de fundações profundas com a execução de oito estacas de cada lado do edifício. Com diâmetro variando de 1,0 a 1,4m, estas estacas têm uma profundidade média de 57,0 m e atingem um solo residual resistente e seguro situado abaixo da camada de argila mole. Na foto, pode-se observar a camisa metálica utilizada para conter o solo durante a execução das estacas.


2a etapa: foram executadas oito vigas de transição com cerca de 4,5 m de altura para receber os esforços dos pilares e transmiti-los às novas fundações.


3a etapa: quatroze macacos hidráulicos acionados por seis bombas, instalados entre as vigas de transição e os novos blocos de fundação, foram utilizados para reaprumar o edifício. Os vãos em que estavam os macacos foram preenchidos com calços metálicos e posteriormente concretados.
A fachada lateral esquerda do edifício foi levantada 45 cm e a fachada posterior, 25 cm, levando o prédio a ficar novamente no prumo.
Reaprumado, o Núncio Malzoni repousa hoje sobre as novas estacas, que transmitem suas 6500 tf ao solo residual seguro e resistente situado a cerca de 60 m de profundidade.


Matéria compilada do site Novo Milênio: http://www.novomilenio.inf.br